terça-feira, 23 de novembro de 2021

Outra chave para o movimento

Tônus
Corpo in descobrimento 
Movimento íngreme no espaço 
Colorem o vácuo 
Ondas sonoras
Ondas vibracionais
Expansão dialética dum'a emoção 
Pulso firme
Ritmo intenso 
Riso ao vento

terça-feira, 8 de outubro de 2019

As cidades invisíveis

             As cidades e os símbolos 
                                       1

            Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é  reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é  mudo e intercambiavel - árvores e pedras são apenas aquilo que são.
Finalmente, a viagem conduz à  cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tiradentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões Delfins, Torres estrelas: símbolo de que alguma coisa - sabe-se lá  o quê - tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é  proibido em algum lugar - entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte - e aquilo que é permitido - dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerado o cadáver dos parentes. Na porta dos templos, vêem-se estátuas dos deuses, cada qual representado com seus atributos e cornucópia, a ampulheta, a medusa, pelos quais os fiéis podem reconhece-los e dirigir-lhes a oração adequada. Se um edifício não contém nenhuma insígnia ou figura, a sua forma e o lugar que ocupa na organização da cidade bastam para indicar a sua função: o Palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Mesmo as mercadorias que os vendedores expõem em suas bancas valem não por si próprias mas como símbolos de outras coisas: a tira bordada para a testa significa elegância; a liteira dourada, poder; os volumes de Averrois, sabedoria; a pulseira para o tornozelo, voluptuosidade. O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes.
     Como é  realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que se esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende -se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão as nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante...


Ítalo Calvino in As cidades invisíveis.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Reflexão sobre Nietzsche

Uma das ideias mais relevantes que consegui filtrar e atingir bons resultados foi com a filosofia de F. Nietzsche com os conceitos de eterno retorno e superação. A começar, Niestzche deixa um legado em sua proposição de encarar os tempos presente, passado e futuro como se nenhum deles existisse, em outras palavras, como se não houvesse distinção entre eles. Isso na práxis é  um movimento (ou devir) que contribui para a imersão e resgate de ações boas ou ruins que aconteceram na história de cada um.
 Revisitar atos permite á autoconsciência um filtro de ambiguidades. Esse processo permite atingir a análise das ações, quando estas estão atreladas ao desenvolvimento do ser e de suas relações com o meio, o que torna tudo Isso, no mínimo, interessante. De fato, ponderando aquilo que pode ser sublimado de alguma maneira nos recalques da psique, pode-se atingir realmente uma superação, para quem sabe a abertura de um novo horizonte. É claro que a ação quando condicionada pela inconsciência no passado e sentida como arrependimento no presente causa uma dor sem precedentes. Mas, sobre todo esse desassossego, resta uma leve satisfação em aprender com os próprios erros. Então,  pra mim isso chega sim a ser uma superação.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Decifrar meu nome

Caminho milhas até chegar ao ponto
Essa terra vazia, deveria ser parte de mim
Eu tento ficar acordado
e
decifrar meu nome
Eu tento motivar a minha atenção 
Mas esse horizonte é tão findo 
E a neblina por trás dessa cortina de sensações 
É (in)finita na mesmíssima coisa humana 
Ao redor estão jarros do cotidiano
plantados ceticamente sob a vergonha do homem
Ainda tento me lembrar, desse lugar
Mas essa refutação , essa vergonha latente 
Sobreviveu aos meios e calculou os fins
Um pouco de tempo, um tabaco
E estou pronto para outra 


Charles Bukowski

[Para Felix Stefanile]
19 de setembro de 1960
Nenhum "rato de biblioteca ou maricas" eu sou...
Sua crítica correta: poema submetido era largado, desleixado, repetitivo, mais eis aqui o fulcro: não consigo TRABALHAR um poema. Poetas demais trabalham seu material conscientemente demais, e quando você vê o trabalho deles publicado eles parecem estar dizendo... veja só, meu velho, dê uma olhada neste POEMA. Eu até poderia dizer que um poema não deveria ser um poema, mas mais um naco de algo que calhou de sair direito. Não acredito em técnica ou escolas ou maricas... acredito em agarrar as cortinas como um monge bêbado... e arrancá-las, rasgá-las, rasgá-las, rasgá-las...
Espero lhe submeter algo de novo, e, acredite em mim, aprecio muito mais uma crítica do que um "sinto muito" ou "não" ou "abarrotados".

Charles Bukowski in Escrever Para não enlouquecer