terça-feira, 8 de outubro de 2019

As cidades invisíveis

             As cidades e os símbolos 
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            Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é  reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é  mudo e intercambiavel - árvores e pedras são apenas aquilo que são.
Finalmente, a viagem conduz à  cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tiradentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões Delfins, Torres estrelas: símbolo de que alguma coisa - sabe-se lá  o quê - tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é  proibido em algum lugar - entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte - e aquilo que é permitido - dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerado o cadáver dos parentes. Na porta dos templos, vêem-se estátuas dos deuses, cada qual representado com seus atributos e cornucópia, a ampulheta, a medusa, pelos quais os fiéis podem reconhece-los e dirigir-lhes a oração adequada. Se um edifício não contém nenhuma insígnia ou figura, a sua forma e o lugar que ocupa na organização da cidade bastam para indicar a sua função: o Palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Mesmo as mercadorias que os vendedores expõem em suas bancas valem não por si próprias mas como símbolos de outras coisas: a tira bordada para a testa significa elegância; a liteira dourada, poder; os volumes de Averrois, sabedoria; a pulseira para o tornozelo, voluptuosidade. O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes.
     Como é  realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que se esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende -se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão as nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante...


Ítalo Calvino in As cidades invisíveis.

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